domingo, 10 de maio de 2009

Voo Sao Paulo-Frankfurt, 09/05/2009

“O bom senso e a coisa mais bem distribuída do mundo: pois cada um pensa estar tão bem provido dele, que mesmo aqueles mais difíceis de se satisfazerem com qualquer outra coisa não costumam desejar mais bom senso do que tem. Assim, não e verossímil que todos enganem; mas, pelo contrario, isso demonstra que o poder de bem julgar e de distinguir o verdadeiro do falso, que e propriamente o que se denomina bom senso ou razão, e por natureza igual em todos os homens; e portanto que a diversidade de nossas opiniões não decorre de uns serem mais razoáveis que os outros, mas somente de que conduzimos nossos pensamentos por diversas vias, e não consideramos as mesmas coisas. Pois não basta ter o espírito bom, mas o principal e aplicá-lo bem. As maiores almas são capazes dos maiores vícios, assim como das maiores virtudes; e aqueles que só caminham muito lentamente podem avançar muito mais, se sempre seguirem o caminho certo, do que aqueles que correm e dele se afastam.
Quanto a mim, jamais presumi que meu espírito fosse em nada mais perfeito do que o comum dos homens; muitas vezes ate desejei ter o pensamento tão pronto ou a imaginação tão nítida e distinta, ou a memória tão ampla e tão presente como alguns outros. E não conheço outras qualidades, alem destas, que sirvam para a perfeição do espírito; pois, quanto à razão ou senso, visto que e a única coisa que nos torna homens e nos distingue dos animais, quero crer que esta inteira em cada um, nisto seguindo a opinião comum dos filósofos, que dizem que só há mais e menos entre os acidentes, e não entre as formas ou naturezas dos indivíduos de uma mesma espécie.
Mas não recearei dizer que penso ter tido muita sorte por ter me encontrado, desde a juventude, em certos caminhos que me conduziram a considerações máximas com as quais formei um método que me parece fornecer um meio de aumentar gradualmente meu conhecimento e de elevá-lo pouco a pouco ao ponto mais alto que a mediocridade de meu espírito e a curta duração de minha vida lhe permitirão alcançar. Pois dele já colhi frutos tais que, embora nos juízos que faço de mim mesmo sempre procure inclinar-me mais para o lado da desconfiança que para o lado da presunção, e embora considerando com olhos de filosofo as diversas ações e empreendimentos de todos os homens não haja quase nenhum que não me pareça vão e inútil, não deixo de sentir uma imensa satisfação pelo progresso que penso já ter feito na procura da verdade, e de conhecer tamanhas esperanças [ara o futuro que, se entre as ocupações dos homens puramente homens há alguma que seja solidamente boa e importante, atrevo-me a crer que e a que escolhi.
Todavia, pode ser que me engane e talvez não passe de um pouco de cobre e de vidro o que tomo por ouro e diamantes. Sei o quanto estamos sujeitos a nos enganar naquilo que nos diz respeito, e também o quanto o pensamento dos nossos amigos nos devem ser suspeitos, quando são a nosso favor. Mas gostaria muito de mostrar, neste discurso, quais são os caminhos que segui, e de nele representar minha vida como num quadro, para que todos possam julgá-lo e para que, tomando conhecimento, pelo rumor comum, das opiniões que se terão sobre ele, seja isso um novo meio de instruir-me, que acrescentarei aqueles de que me costumo servir.
Assim, meu propósito aqui não e ensinar o método que cada um deve seguir para bem conduzir sua razão, mas somente mostrar de que modo procurei conduzir a minha. Aqueles que se metem a dar preceitos devem achar-se mais hábeis do que aqueles a quem os dão; e, se falham na menor coisa, são por isso censuráveis. Mas, propondo este escrito apenas como historia, ou, se preferirdes, apenas como uma fabula, na qual, dentre alguns exemplos que podem ser imitados, talvez também se encontrem vários outros que se terá razão em não seguir, espero que ele seja útil a alguns sem ser nocivo a ninguém, e que todos apreciem a minha franqueza.”
Faço de Rene Descartes as minha palavras quanto ao propósito desse blog e a autenticidade do conteúdo aplicado neste. Claro que não e em tudo a minha concordância com o filosofo, mas pode-se dizer que raramente encontro palavras providas de pensamentos tao similares aos meus. Esse e um trecho do livro “Discurso do método” que venho lendo durante o meu vôo para Frankfurt, aonde farei escala para Hong Kong.

PS.: Deus, te amo